.derrogando.
sábado, 1 de outubro de 2016
Carta ao meu sobrinho(a)
Um dia, quando você puder entender, vou sentar contigo e ler o que agora escrevo para você.
Saber que você vai chegar foi um renovar de esperanças. O sentimento, que agora enche o peito, dá a certeza de que o amor é mesmo o maior e mais forte instrumento de transformação que há no mundo. Eu já te amo e já quero me tornar uma pessoa melhor do que sou hoje para quando você chegar por aqui.
Queria tentar explicar o que senti ao saber que você ia chegar, mas certos sentimentos são mesmo indescritíveis, então vou tentar te dizer algumas coisas que eu aprendi no caminho até aqui e que eu acho que vão ser úteis para você.
Talvez isso fique muito extenso, mas vai servir para que você exercite sua primeira lição: tenha um pouco de paciência! Logo cedo, você vai perceber que eu e seu pai temos isso em comum: falamos muito, o tempo todo...queremos explicar tudo o que pensamos e sentimos.
Provavelmente, o seu pai vai tentar te convencer, desde os seus primeiros dias de vida, que você já nasceu torcedor(a) do Ceará. Quanto a isso, preciso dizer que será uma das poucas coisas sobre as quais você não terá o poder de escolha. Sua mãe vai concordar com ele, eu vou concordar com ele, seus avós e todo o restante da família também. Mas, não se preocupa, rapidamente você vai entender que é a melhor (e única) opção, pois provavelmente o outro time ainda estará na série C e o nosso vozão brilhará na série A do brasileirão.
Você vai perceber cedo também que sua vó Ina faz o melhor bolo de chocolate do mundo inteiro. Normalmente, ela só faz em datas especiais como aniversário, natal e etc. Mas, sempre que você quiser muito comer esse bolo, é só você ligar para ela e falar algumas palavras mágicas, que eu vou te contar em segredo quais são, tá certo?
As coisas, nesse mundo que você vai conhecer, estão bem diferentes de quando eu, seu pai e seu tio Wil éramos crianças. Talvez, por isso, as nossas histórias de infância possam parecer tão distantes da sua realidade hoje. Mas nós, mesmo sem tablets, celulares, computadores e afins, fomos muito felizes. Eu vou tentar não ser uma tia velha e chata que só fala do passado, vou ser inteirada em todas as tecnologias possíveis para te acompanhar, mas saiba que vou fazer questão de te tirar do virtual e fazer você saber o que é jogar bila, brincar de esconde esconde, jogar carimba...
De vez em quando, ao invés de ganhar aquele super brinquedo que você quer muito, vão te dar uma roupa ou um livro. É, eu sei que é chato, mas vai acontecer. Aí você vai precisar continuar exercitando sua paciência, porque essas pessoas não vão fazer por mal. É que, com o tempo, os adultos vão esquecendo de como é ser criança e se importam mais com as coisas práticas da vida. Também é bom ganhar roupas, você vai precisar delas, mesmo que elas pareçam sem nenhuma utilidade naquele momento. Quanto aos livros, você precisa aprender logo: eles serão partes fundamentais na construção de quem você será. De preferência, ande sempre acompanhado por um. Vou te apresentar algumas leituras, mas nós vamos começar pelas revistinhas da Turma da Mônica que eu venho guardando para você.
De vez em quando, principalmente quando fizeram algo que você não queria de jeito nenhum, você vai sentir muita raiva. Talvez chore, talvez tenha vontade de bater...mas eu preciso te dizer: durante toda a vida vão acontecer coisas que a gente não gostaria que acontecessem. Quanto ao choro, muitas vezes, ele será tão inevitável quanto essencial. Mas já com relação à raiva, esse é um sentimento que faz muito mal para gente. Não vale a pena alimentá-lo e, acredite, bater (nem mesmo naquele menino mais chato da escola) não vai solucionar o problema.
Seus pais dirão todos os dias, pelos menos umas três vezes, e seu dentista também, sempre que você for lá, que é muito importante escovar os dentes e passar fio dental. Eu sei que é muito chato, mas acredite neles. Você precisa mesmo fazer isso sempre.
Outra coisa que é chata é que, nós adultos temos a mania de fingir ter respostas para tudo. Muitas vezes você mesmo vai perceber que isso não pode ser tão verdade assim. Então, vai criando no seu HD mental ou anotando nas notas do seu tablet as coisas sobre as quais você desconfiar que nós não estamos tão certos assim. Vai procurando respostas para essas coisas e ai você vai entender, com o tempo, que certas respostas ninguém tem.
Às vezes vão brigar com você porque você vai querer ficar jogando vídeo game até tarde e não vai querer ir para cama. Vai ser chato ir para cama sem querer e sem sono, eu sei. Mas acredita, você precisa fazer isso. São os hábitos que nós criamos que determinam a vida que levamos. Fecha os olhos, tenta não pensar muito no jogo que ficou por jogar. Fica lembrando da história do último filme que você assistiu ou do último livro que você leu, que logo o sono vem.
Esses filmes, essas histórias que você ler, a televisão, a internet, seus amigos da escola e do prédio vão falar muito para você sobre monstros. Você vai perguntar muito se eles existem ou não. Você vai sentir medo algumas vezes. Mas, fica tranquilo(a), sempre que você sentir medo, pode me ligar ou me chamar para conversar. Com o tempo, você vai ver que esses monstros, existindo ou não, só vão poder te atingir de alguma forma se você não souber lidar com eles.
Na escola, você vai conhecer outras crianças que terão cores, jeitos, cheiros, formas de falar diferentes de você. Entenda e guarde: as diferenças não tornam ninguém melhor ou pior que ninguém.
Você vai conhecer minhas amigas, algumas que fiz na escola também, como a Laninha e a Jorgiana, e outras que fiz na Faculdade, que é para onde você vai quando terminar a escola, como a Tatá, a Lini, a Sarinha, a Debrinha, e, vendo a nossa amizade, você vai entender a importância de ter um amigo sempre com você. Conserve e cuide dos seus amigos.
Você também, desde cedo, ouvirá sobre Deus. Acredite Nele. Acredite que no amor. Acredite no amor representado na história do homem que foi a tradução dessa palavra, Jesus.
Tenho mais um monte de coisas para te falar, mas a gente ainda vai ter muitas outras conversas como essa.
Eu tive o melhor modelo de tia que alguém poderia ter e quero ser para você o que aprendi a ser com ela.
Saiba que aqui sempre terá colo, carinho, cumplicidade, apoio incondicional, companhia para qualquer situação e amor, muito amor. Um amor que já enche o meu peito e só se multiplica quanto mais se aproxima a sua chegada.
Pode vir, que o mundo é bom e a vida é bonita e é bonita...
Agora vamos terminar nossa volta de bicicleta que já está quase na hora que eu prometi que deixaria você de volta em casa.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
Antes de começar, vou só fazer uma pequena explicação para quem, porventura, tenha vindo ao blog à procura de outros textos e se depare com esse: o texto vai ser leve e impessoal. É mais em tom de desabafo e registro das coisas boas que vem enchendo meu coração e que eu precisava escrever como forma de registro. Não é um texto crítico e nem jurídico.
Tá acabando o meu mês preferido do ano.
Janeiro para mim é sinônimo de renovação, de novos planos, de novos ares, de recomeço... e de promessas, que ainda que não sejam cumpridas, vão embalar os sonhos e motivar a caminhada no resto do ano.
Mês de celebração da vida de tanta gente querida... e da minha :)
E esse janeiro decidi que seria pura celebração para mim e foi.
Talvez minha decisão pessoal de celebrar tenha me feito ver tudo com outros olhos.
Talvez.
Mas é verdade é que não foi um ano de festa com convidados e bebidas e nem de encontro marcado em algum restaurante.
Foi o ano do “deixa rolar”. Dia 13, foi o dia de acordar na hora que deu vontade, vestir o biquíni mais confortável e ir pra praia despretensiosamente. E lá encontrar, sem aviso, os amigos mais queridos para os melhores abraços. Foi o dia do banho de mar renovador e da meditação necessária.
De receber os telefonemas mais inesperados e mais cheios de carinho e das mensagens que encheram o coração.
Senti amor.
Foi o dia de chegar da praia e ver a casa cheia daqueles que sempre estão comigo apesar de tudo e apesar de nada, aqueles que me amam independente de qualquer coisa. E depois sair para abraçar mais amigos.
Eita dia lindo!
E cada dia desse janeiro foi celebrado.
Nem sei se essa é uma conclusão certa, mas eu conclui que tudo vai mudando por fora quando a gente muda por dentro.
Eu podia ter lamentado tudo que não teve nesse dia e nesse mês. As ligações esperadas que não se concretizaram no dia 13 e tantas outras coisas.
Mas, ao invés de dar atenção ao que faltou, resolvi celebrar o que abundou.
E mudar o foco, mudou minha maneira de receber.
E eu recebi cada abraço como uma forma de me dizer que é só isso mesmo que vale a pena nessa vida: o amor que sentimos.
Vou continuar celebrando. Acho que é pra isso que tô aqui :)
Sou grata.
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
História baseada em fatos mais ou menos reais.
Tenho um aluno que quase toda aula chega atrasado. Normalmente assiste aula sentado em uma das últimas carteiras. Sempre de óculos escuros. Sempre com um sorriso no rosto.
Enquanto dou aula, costumo observá-lo. Como faço com outros alunos também. E, ao contrário do que poderia parecer pela descrição que fiz, mesmo com os óculos escuros que sempre o acompanham, desde o primeiro dia, de aula percebi seu interesse.
Faço uma pausa nessa história para uma digressão.
(Acredito, na verdade, que é isso que nós – professores – somos: contadores de histórias. Acredito que temos que contar essas histórias de maneira a inspirar e motivar quem as ouve) .
Então, vamos à digressão: no início desse semestre, mais precisamente no dia do estudante, dia 11 de agosto, fraturei a tíbia da perna direita jogando futebol (não foi exatamente jogando e eu conto melhor essa história em outro texto aqui no blog). Em razão dessa fratura, tive que fazer uma cirurgia e ficar cerca de 50 dias com um fixador externo na perna, o que fez com que eu me afastasse das atividades por aproximadamente três semanas. Voltei a dar aula ainda com o fixador na perna.
Então, em uma manhã de segunda-feira, lá estava eu ministrando a aula, quando o aluno que descrevi no começo do texto chegou. Sentou no lugar de costume e lá permaneceu até o final da aula, quando, enquanto eu arrumava minhas coisas e todos iam saindo, ele parou ao meu lado, tirou os óculos escuros e começou a conversar comigo.
Pela primeira vez nos olhamos sem que ele estivesse de óculos escuros. E, enquanto eu o olhava, ele me perguntou como eu estava e começou a me contar uma história, a sua história. Naquela hora, eu passei a ser a espectadora, a aprendiz, a aluna, e ele o professor.
Ele apontou para o olho esquerdo e disse: “Tá vendo, professora? Eu não tenho o olho esquerdo”.
Ainda recém nascido foi diagnosticado com retinoblastoma e desenganado pelos médicos. A mãe, ainda que sem tantas condições, não acreditou no prognóstico, seguiu procurando um tratamento que o salvasse. Nessa busca, encontraram um médico especialista que acabara de chegar de um período de estudos no exterior no qual aprendera um nova técnica para casos como o dele. Ainda que o procedimento fosse perigoso, era a melhor oportunidade dele. O médico aceitou tratá-lo. Os pais aceitaram os riscos que aquele procedimento acarretava. A cirurgia foi feita. E foi bem sucedida. Contra todos os prognósticos, ele sobreviveu e se curou. (E isso explica o uso constante dos óculos escuros).
Ele apontou para a mão esquerda e disse: “Tá vendo, professora? Eu não tenho metade do dedinho da mão esquerda. Quando era ainda menino tentei pular de uma janela de vidro e minha mão ficou pendurada".
Ele apontou para o braço e me mostrou as marcas de uma cirurgia que tivera que fazer para colocar pinos no osso em razão de uma fratura que sofreu quanto estava andando de skate.
E me contou tudo aquilo sorrindo, para ao final dizer: “fique tranquila, passa, você vai ficar bem. Eu tô aqui. Sobrevivi a tudo isso e tô bem“.
Para qualquer pessoa que tenha ouvido nossa conversa ou que esteja lendo agora pode parecer só mais uma história de um cara que superou uma doença e que agora vive loucamente.
Mas aquele aluno contador de histórias me transmitiu várias mensagens que talvez nem ele mesmo saiba. Ele reafirmou que a gente nunca pode julgar pela aparência, afinal a gente nunca sabe o que pode ter por trás dos óculos escuros. Mas a mensagem mais bonita que ele me passou com aquela conversa foi: viver deixa marcas.
Às vezes marcas físicas, visíveis.
Mas, na maiorias das vezes, marcas na alma.
Fiquei alguns momentos só na sala de aula depois que ele saiu e fiquei analisando aquela nossa conversa e o meu papel ali. Fiquei pensando sobre minha função na vida de todas aquelas pessoas.
Sentada, sem plateia, falei só por alguns minutos e cheguei a algumas conclusões as quais passarei a listar.
Acredito que nossa maior função não é transmitir um conteúdo de maneira cartesiana, pragmática.
Obviamente precisamos passar o conhecimento. Precisamos oferecer, da melhor maneira possível, possibilidades de evolução intelectual.
Mas o conteúdo é superável. Como diz Karl Popper, tanto melhor será uma teoria científica, quanto maior a possibilidade de ser falseada.
O conteúdo do Direito mais ainda.
A teoria que passei para os meus alunos de processo civil no ano passado já está defasada. Temos um novo código.
E então? O que fica? Qual a nossa função?
E eu percebi que o nosso maior papel é justamente esse: deixar marcas.
Marcas que os farão lembrar do conhecimento quando dele precisarem, mas, mais ainda, marcas que os farão compreender que tudo na vida depende do quanto você está disposto.
Muitos dizem que precisamos ser exemplo. Eu não concordo. É difícil ser espelho. É muito pesado esse fardo para qualquer pessoa. As pessoas vivem e sentem de maneiras diferentes e nem sempre a maneira como escolho viver encontrará eco nas escolhas feitas pelos outros.
Mas acredito que o que precisamos mesmo é deixar marcas. Marcas que sempre que tocadas irão motivar, de algum modo, a seguir.
O que eu posso dizer é que tenho muitas marcas. Marcas de professores que passaram pela minha vida e contribuíram para a minha formação pessoal, aos quais serei sempre grata.
Levo comigo também marcas de alunos queridos que alimentaram minha vocação e que me fizeram perceber que eu não poderia ter feito melhor escolha.
Sou professora, com orgulho.
Tenho um aluno que quase toda aula chega atrasado. Normalmente assiste aula sentado em uma das últimas carteiras. Sempre de óculos escuros. Sempre com um sorriso no rosto.
Enquanto dou aula, costumo observá-lo. Como faço com outros alunos também. E, ao contrário do que poderia parecer pela descrição que fiz, mesmo com os óculos escuros que sempre o acompanham, desde o primeiro dia, de aula percebi seu interesse.
Faço uma pausa nessa história para uma digressão.
(Acredito, na verdade, que é isso que nós – professores – somos: contadores de histórias. Acredito que temos que contar essas histórias de maneira a inspirar e motivar quem as ouve) .
Então, vamos à digressão: no início desse semestre, mais precisamente no dia do estudante, dia 11 de agosto, fraturei a tíbia da perna direita jogando futebol (não foi exatamente jogando e eu conto melhor essa história em outro texto aqui no blog). Em razão dessa fratura, tive que fazer uma cirurgia e ficar cerca de 50 dias com um fixador externo na perna, o que fez com que eu me afastasse das atividades por aproximadamente três semanas. Voltei a dar aula ainda com o fixador na perna.
Então, em uma manhã de segunda-feira, lá estava eu ministrando a aula, quando o aluno que descrevi no começo do texto chegou. Sentou no lugar de costume e lá permaneceu até o final da aula, quando, enquanto eu arrumava minhas coisas e todos iam saindo, ele parou ao meu lado, tirou os óculos escuros e começou a conversar comigo.
Pela primeira vez nos olhamos sem que ele estivesse de óculos escuros. E, enquanto eu o olhava, ele me perguntou como eu estava e começou a me contar uma história, a sua história. Naquela hora, eu passei a ser a espectadora, a aprendiz, a aluna, e ele o professor.
Ele apontou para o olho esquerdo e disse: “Tá vendo, professora? Eu não tenho o olho esquerdo”.
Ainda recém nascido foi diagnosticado com retinoblastoma e desenganado pelos médicos. A mãe, ainda que sem tantas condições, não acreditou no prognóstico, seguiu procurando um tratamento que o salvasse. Nessa busca, encontraram um médico especialista que acabara de chegar de um período de estudos no exterior no qual aprendera um nova técnica para casos como o dele. Ainda que o procedimento fosse perigoso, era a melhor oportunidade dele. O médico aceitou tratá-lo. Os pais aceitaram os riscos que aquele procedimento acarretava. A cirurgia foi feita. E foi bem sucedida. Contra todos os prognósticos, ele sobreviveu e se curou. (E isso explica o uso constante dos óculos escuros).
Ele apontou para a mão esquerda e disse: “Tá vendo, professora? Eu não tenho metade do dedinho da mão esquerda. Quando era ainda menino tentei pular de uma janela de vidro e minha mão ficou pendurada".
Ele apontou para o braço e me mostrou as marcas de uma cirurgia que tivera que fazer para colocar pinos no osso em razão de uma fratura que sofreu quanto estava andando de skate.
E me contou tudo aquilo sorrindo, para ao final dizer: “fique tranquila, passa, você vai ficar bem. Eu tô aqui. Sobrevivi a tudo isso e tô bem“.
Para qualquer pessoa que tenha ouvido nossa conversa ou que esteja lendo agora pode parecer só mais uma história de um cara que superou uma doença e que agora vive loucamente.
Mas aquele aluno contador de histórias me transmitiu várias mensagens que talvez nem ele mesmo saiba. Ele reafirmou que a gente nunca pode julgar pela aparência, afinal a gente nunca sabe o que pode ter por trás dos óculos escuros. Mas a mensagem mais bonita que ele me passou com aquela conversa foi: viver deixa marcas.
Às vezes marcas físicas, visíveis.
Mas, na maiorias das vezes, marcas na alma.
Fiquei alguns momentos só na sala de aula depois que ele saiu e fiquei analisando aquela nossa conversa e o meu papel ali. Fiquei pensando sobre minha função na vida de todas aquelas pessoas.
Sentada, sem plateia, falei só por alguns minutos e cheguei a algumas conclusões as quais passarei a listar.
Acredito que nossa maior função não é transmitir um conteúdo de maneira cartesiana, pragmática.
Obviamente precisamos passar o conhecimento. Precisamos oferecer, da melhor maneira possível, possibilidades de evolução intelectual.
Mas o conteúdo é superável. Como diz Karl Popper, tanto melhor será uma teoria científica, quanto maior a possibilidade de ser falseada.
O conteúdo do Direito mais ainda.
A teoria que passei para os meus alunos de processo civil no ano passado já está defasada. Temos um novo código.
E então? O que fica? Qual a nossa função?
E eu percebi que o nosso maior papel é justamente esse: deixar marcas.
Marcas que os farão lembrar do conhecimento quando dele precisarem, mas, mais ainda, marcas que os farão compreender que tudo na vida depende do quanto você está disposto.
Muitos dizem que precisamos ser exemplo. Eu não concordo. É difícil ser espelho. É muito pesado esse fardo para qualquer pessoa. As pessoas vivem e sentem de maneiras diferentes e nem sempre a maneira como escolho viver encontrará eco nas escolhas feitas pelos outros.
Mas acredito que o que precisamos mesmo é deixar marcas. Marcas que sempre que tocadas irão motivar, de algum modo, a seguir.
O que eu posso dizer é que tenho muitas marcas. Marcas de professores que passaram pela minha vida e contribuíram para a minha formação pessoal, aos quais serei sempre grata.
Levo comigo também marcas de alunos queridos que alimentaram minha vocação e que me fizeram perceber que eu não poderia ter feito melhor escolha.
Sou professora, com orgulho.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Um dia você aprende
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Um dia você aprende
O cliente teve uma ideia genial para solucionar o seu processo e me ligou: dá pra fazer? Respondi que pensaria sobre o assunto, pesquisaria e analisaria se era possível.
Depois de uns dias, achei a fundamentação jurídica (e num é que ele quase que reproduziu o texto da lei sem saber... ahhh a sabedoria que o tempo dá, ele com longos anos de uma vida bem vivida, lembrou-me que não tem formação no mundo que se compare com o que a vida ensina).
Pronto. Fiz a petição e protocolei. No mesmo dia, fui despachar com o juiz e ... o balde de água fria. Após me ouvir pacientemente, aquele magistrado de cabelos grisalhos e olhos atentos, de maneira direta (não, ele não foi rude, apenas direto), disse-me que não entendia aquele dispositivo legal daquela forma, mas que despacharia e que eu ficasse a vontade para impetrar mandado de segurança, vez que não caberia agravo, em razão do tramite ser em juizado especial. Eu agradeci a atenção e, quando ia saindo, ele disse: por favor, deixe a petição e as jurisprudências para que eu localize mais rápido o processo. Deixei.
Com um realismo pessimista, liguei para o genial cliente e disse: vamos elaborar o mandado de segurança. Ele, sábio, como sempre, agradeceu a tentativa e disse que o que importava é que estávamos pensando, estudando, buscando novas saídas e que o resultado viria, uma hora viria. E veio. Mais rápido do que eu, com a pressa dessa nossa geração de resultado que quer tudo hoje e agora, poderia esperar. Na manhã de hoje, um dia após conversar com o juiz, recebo um intimação e vou olhar o processo, já marcando os 120 dias para o MS. Para minha surpresa, com a humildade de quem é capaz de rever seus posicionamentos, o juiz acatou nosso pedido. Liguei para o sábio cliente, que não pareceu surpreso. É ele já sabia... deveria saber que nada estava perdido. E eu, que sorte que eu tenho, só aprendi hoje. Aprendi com o sábio cliente, aprendi com o admirável juiz e aprendi com a vida.
A minha petição hoje é para Deus, para que um dia eu chegue na idade deles (do juiz e do cliente) com essa paz de espírito, essa sabedoria, essa humildade, essa tranquilidade, essa capacidade de pensar e de rever meus posicionamentos quando necessário.
No final, a vida deve ser medida por isso: além do amor que sentimos, a nossa capacidade de acreditar.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
AS VIRTUDES UNIDAS SÃO MAIS FORTES. 110 ANOS DE VIRTUDES COMPARTILHADAS, SÃO UMA FORTALEZA.
Ainda posso lembrar a sensação vivenciada na primeira vez que entrei ali. Acredito que, naquele momento, estudante do terceiro ano, eu não imaginava tudo que aquele lugar se tornaria para mim.
Era um sonho de longa data, que me acompanhou desde as brincadeiras pueris de “o que você vai ser quando crescer?”.
Sempre soube que queria fazer Direito. Desde que tive o discernimento necessário, soube que queira ser advogada. E a Faculdade de Direito era um sonho.
Ainda lembro como se fosse hoje a sensação indescritível e inigualável ao receber o telefonema do Juarez e da conversa, logo em seguida, com o Gustavo Brígido, que cobrou o pagamento da aposta... eu devia a ele duas latas de biscoito da mamãe.
O meu nome estava na lista. Lista de vidas que, de alguma maneira, a partir daquele resultado, estavam fadadas a escrever uma história em comum.
Entre o resultado e o início das aulas tudo era expectativa. O dia da matrícula no campus do Pici, foi mais um desses dias memoráveis.
Lembro da Fabíola, que na época era do C.A. (eu não fazia menor ideia do significava tal sigla), me entregando um folheto, que até hoje guardo, e um pirulito. Ao ler o folheto descobri que, a partir daquele momento, era uma bichete e que aquele pirulito, generosamente ofertado, era minha ração.
Lembro ainda que, enquanto esperava na fila para fazer a matrícula, vi chegar o professor Walmir e fui cumprimentá-lo. Percebi uma dose extra de orgulho e satisfação que havia no sorriso habitual do meu professor por três anos seguidos e logo entendi o motivo. Fui apresentada ao seu filho Raphael que também estava ali para fazer sua matrícula. Lembro de mais alguns rostos que ainda não eram nenhum um pouco familiares e que eu nem imaginava a importância que passariam a ter na minha vida.
Recebi mais alguns panfletos de projetos de extensão e sai dali transbordando felicidade e com algumas folhinhas que não cansaria de ler até decorar e ficar imaginando tudo que viveria naquele mundo novo que começava.
E o sonho se tornou realidade em março de 2005, quando retornei àquele lugar do inicio da narrativa, nesse momento, não mais como observadora externa daquele mundo desconhecido, mas como “bichete” da FD. Ainda posso sentir aquela emoção indescritível em palavras.
E um mundo novo se abriu. E uma paixão nova foi despertada em mim. Passei a amar não só o Direito e a profissão que escolhi para mim, mas passei a amar aquele lugar e tudo o que ele significava e significa.
E, como toda paixão, essa foi arrebatadora. E eu me entreguei.
Posso dizer que, desde aquele 8 março de 2005, tudo, de alguma forma, tem uma ligação com aquele lugar.
E a minha trajetória foi e é de entrega e descoberta.
Entrega à capacitação e curta participação no Centro de Assessoria Jurídica Universitária; à participação da diretoria de 3 gestões do CACB enquanto estudante da graduação e uma como estudante da Pós Graduação; à Reforma - que, para acontecer, além de termos conseguido a verba junto ao então Deputado Inácio Arruda, tivemos que passar as férias dentro dela encaixotando livros para que a reforma pudesse começar - da Biblioteca; ao projeto e realização da I Semana do Direito, no ano de 2006; à participação na organização das 7 edições da Semanas do Direito ocorridas até aqui; ao Grupo de Teatro, em seus primórdios; ao Grupo de Cinema e Literatura, também em seus primórdios; ao Núcleo de Estudos de Ciências Criminais; às Sonus; ao Escritório Modelo; à monitoria; às organizações de calouradas. Bichurrascos, saraus, semanas de recepção dos calouros e afins; entrega ao Programa de Pós Graduação;
Descoberta dos melhores anos da minha vida, dos melhores amigos e das experiências mais ricas.
E hoje, esse lugar, completa 110 anos de existência.
Nesse momento, eu posso de falar de números: R$ 450.000,00 (quatrocentos e cinquenta mil reais) de verbas conseguidas durante a gestão Caminhar e Agir, nos anos de 2005 e 2006, sendo R$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil reais) de dotação orçamentária solicitada pelo Deputado Inácio Arruda e R$ 300.000,00 (trezentos mil reais) pelo Senador Tasso Jereissati. Verba essa destina às reformas estruturais que incluem a adaptação da Faculdade ao acesso de deficientes físicos, com a construção de elevador e banheiro adaptado, além da reforma do “Prédio Novo”, que proporcionou a criação de novas salas de aula, e, ainda, a construção do prédio administrativo anexo com 355,00 m², que nos trouxe espaço físico que viabilizou o desenvolvimento do de doutorado. Sem contar com os 50.000,00 (cinquenta mil reais) de dotação orçamentária solicitada pelo Deputado Pimentel para compra de livros novos para biblioteca, conseguidos pela gestão Consolidando e Construindo, nos anos de 2004 e 2005, além dos R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) já executados no ano de 2006, especificamente na Biblioteca da Faculdade (Inácio e Pimentel).
Nesse momento, eu posso falar de nomes, de figuras de inegável e inestimável importância, que foram responsáveis, direta ou indiretamente, pela revitalização estrutural da nossa Centenária Instituição de Ensino, como Tarcísio Nogueira de Paula, Julio Brizzi, Rudson Rocha, Alander, Holanda, Rodrigo Rocha, dentre tantos outros.
Eu posso falar das dificuldades enfrentadas para que fosse possível tirar esses números do papel e transformá-los na realidade que hoje temos o privilégio de assistir.
Entretanto, acredito que mais importante do que falar de qualquer desses pontos, é falar sobre a nossa motivação para cada um de nossos atos e sobre tudo o que a Faculdade de Direito significa.
Em um de nossos discursos de posse, dissemos que estávamos dispostos a construir ações sólidas, que queríamos que nossas gestões passassem, que nossos nomes passassem, mas o que construíssemos ficasse.
Orgulha-nos ver hoje que isso aconteceu. Todo esse trabalho desenvolvido ao longo desses anos vai ficar. O nome de nossas gestões irá passar. Saímos da faculdade e nossos nomes são só mais alguns nas placas de formatura, mas o que construímos ficará e nada pode mudar isso.
Como ficou e ficará o nosso amor por essa Instituição de Ensino. Amor esse que seguiremos transformando em ações, enquanto nos for permitido.
À Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, minha eterna gratidão.
Ainda posso lembrar a sensação vivenciada na primeira vez que entrei ali. Acredito que, naquele momento, estudante do terceiro ano, eu não imaginava tudo que aquele lugar se tornaria para mim.
Era um sonho de longa data, que me acompanhou desde as brincadeiras pueris de “o que você vai ser quando crescer?”.
Sempre soube que queria fazer Direito. Desde que tive o discernimento necessário, soube que queira ser advogada. E a Faculdade de Direito era um sonho.
Ainda lembro como se fosse hoje a sensação indescritível e inigualável ao receber o telefonema do Juarez e da conversa, logo em seguida, com o Gustavo Brígido, que cobrou o pagamento da aposta... eu devia a ele duas latas de biscoito da mamãe.
O meu nome estava na lista. Lista de vidas que, de alguma maneira, a partir daquele resultado, estavam fadadas a escrever uma história em comum.
Entre o resultado e o início das aulas tudo era expectativa. O dia da matrícula no campus do Pici, foi mais um desses dias memoráveis.
Lembro da Fabíola, que na época era do C.A. (eu não fazia menor ideia do significava tal sigla), me entregando um folheto, que até hoje guardo, e um pirulito. Ao ler o folheto descobri que, a partir daquele momento, era uma bichete e que aquele pirulito, generosamente ofertado, era minha ração.
Lembro ainda que, enquanto esperava na fila para fazer a matrícula, vi chegar o professor Walmir e fui cumprimentá-lo. Percebi uma dose extra de orgulho e satisfação que havia no sorriso habitual do meu professor por três anos seguidos e logo entendi o motivo. Fui apresentada ao seu filho Raphael que também estava ali para fazer sua matrícula. Lembro de mais alguns rostos que ainda não eram nenhum um pouco familiares e que eu nem imaginava a importância que passariam a ter na minha vida.
Recebi mais alguns panfletos de projetos de extensão e sai dali transbordando felicidade e com algumas folhinhas que não cansaria de ler até decorar e ficar imaginando tudo que viveria naquele mundo novo que começava.
E o sonho se tornou realidade em março de 2005, quando retornei àquele lugar do inicio da narrativa, nesse momento, não mais como observadora externa daquele mundo desconhecido, mas como “bichete” da FD. Ainda posso sentir aquela emoção indescritível em palavras.
E um mundo novo se abriu. E uma paixão nova foi despertada em mim. Passei a amar não só o Direito e a profissão que escolhi para mim, mas passei a amar aquele lugar e tudo o que ele significava e significa.
E, como toda paixão, essa foi arrebatadora. E eu me entreguei.
Posso dizer que, desde aquele 8 março de 2005, tudo, de alguma forma, tem uma ligação com aquele lugar.
E a minha trajetória foi e é de entrega e descoberta.
Entrega à capacitação e curta participação no Centro de Assessoria Jurídica Universitária; à participação da diretoria de 3 gestões do CACB enquanto estudante da graduação e uma como estudante da Pós Graduação; à Reforma - que, para acontecer, além de termos conseguido a verba junto ao então Deputado Inácio Arruda, tivemos que passar as férias dentro dela encaixotando livros para que a reforma pudesse começar - da Biblioteca; ao projeto e realização da I Semana do Direito, no ano de 2006; à participação na organização das 7 edições da Semanas do Direito ocorridas até aqui; ao Grupo de Teatro, em seus primórdios; ao Grupo de Cinema e Literatura, também em seus primórdios; ao Núcleo de Estudos de Ciências Criminais; às Sonus; ao Escritório Modelo; à monitoria; às organizações de calouradas. Bichurrascos, saraus, semanas de recepção dos calouros e afins; entrega ao Programa de Pós Graduação;
Descoberta dos melhores anos da minha vida, dos melhores amigos e das experiências mais ricas.
E hoje, esse lugar, completa 110 anos de existência.
Nesse momento, eu posso de falar de números: R$ 450.000,00 (quatrocentos e cinquenta mil reais) de verbas conseguidas durante a gestão Caminhar e Agir, nos anos de 2005 e 2006, sendo R$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil reais) de dotação orçamentária solicitada pelo Deputado Inácio Arruda e R$ 300.000,00 (trezentos mil reais) pelo Senador Tasso Jereissati. Verba essa destina às reformas estruturais que incluem a adaptação da Faculdade ao acesso de deficientes físicos, com a construção de elevador e banheiro adaptado, além da reforma do “Prédio Novo”, que proporcionou a criação de novas salas de aula, e, ainda, a construção do prédio administrativo anexo com 355,00 m², que nos trouxe espaço físico que viabilizou o desenvolvimento do de doutorado. Sem contar com os 50.000,00 (cinquenta mil reais) de dotação orçamentária solicitada pelo Deputado Pimentel para compra de livros novos para biblioteca, conseguidos pela gestão Consolidando e Construindo, nos anos de 2004 e 2005, além dos R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) já executados no ano de 2006, especificamente na Biblioteca da Faculdade (Inácio e Pimentel).
Nesse momento, eu posso falar de nomes, de figuras de inegável e inestimável importância, que foram responsáveis, direta ou indiretamente, pela revitalização estrutural da nossa Centenária Instituição de Ensino, como Tarcísio Nogueira de Paula, Julio Brizzi, Rudson Rocha, Alander, Holanda, Rodrigo Rocha, dentre tantos outros.
Eu posso falar das dificuldades enfrentadas para que fosse possível tirar esses números do papel e transformá-los na realidade que hoje temos o privilégio de assistir.
Entretanto, acredito que mais importante do que falar de qualquer desses pontos, é falar sobre a nossa motivação para cada um de nossos atos e sobre tudo o que a Faculdade de Direito significa.
Em um de nossos discursos de posse, dissemos que estávamos dispostos a construir ações sólidas, que queríamos que nossas gestões passassem, que nossos nomes passassem, mas o que construíssemos ficasse.
Orgulha-nos ver hoje que isso aconteceu. Todo esse trabalho desenvolvido ao longo desses anos vai ficar. O nome de nossas gestões irá passar. Saímos da faculdade e nossos nomes são só mais alguns nas placas de formatura, mas o que construímos ficará e nada pode mudar isso.
Como ficou e ficará o nosso amor por essa Instituição de Ensino. Amor esse que seguiremos transformando em ações, enquanto nos for permitido.
À Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, minha eterna gratidão.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
A OUTRA FACE DA FORTALEZA SITIADA.
Aos três dias de janeiro de 2012, Fortaleza, a terra do sol, do turismo de janeiro, do 2° maior Reveillon do País, parou.
Pela televisão, pelos celulares, tablets, ipods, netbooks e afins as noticias sobre o caos que teria se instaurado sobre a cidade se proliferaram.
Em tempo real historias (ou seriam estórias?) sobre casos “realmente verídicos” acontecidos com os primos dos tios de conhecidos dos relatores de tais fatos foram difundidas como um telefone sem fio (aquela brincadeira dos tempos de criança) interminável.
Assistimos, então, a cidade sendo tomada (real ou virtualmente) e os relatos desesperados das vítimas sendo divulgados como troféus nas mídias sociais. Como provas de que todo aquele sensacionalismo era fundamentado em “fatos reais”.
Nesse ponto, paro para fazer uma digressão e explicar o motivo dessa “onda de terror” que teve seu ápice no dia de hoje.
No dia 29 de dezembro parte dos policiais militares e bombeiros do Ceará decidiram paralisar as atividades, tendo como reivindicação reajuste salarial de 80% em quatro anos, sendo aumento de 20% em cada ano e ainda anistia pela participação em ato de protesto no dia 17 de dezembro, quando servidores protestaram durante uma visita de Cid Gomes a obras do Metrofor, o famigerado metrô de Fortaleza.
Para resolver a situação em caráter emergencial e manter a segurança durante o Reveillon, uma vez que Fortaleza figurou a segunda maior “festa da virada” do país, o governador decretou situação de emergência em todo o território do Estado do Ceará, para contar com reforços da Força Nacional de Segurança e do Exército.
Quanto a essa greve, faz-se importante ressaltar que, como bem explana o Ministro Eros Graus na Rcl 6.568 de 2009, os servidores públicos são, seguramente, titulares do direito de greve. Essa é a regra. Ocorre, contudo, que entre os serviços públicos há alguns que a coesão social impõe sejam prestados plenamente, em sua totalidade.
Atividades das quais dependam a manutenção da ordem pública e a segurança pública, a administração da Justiça e a saúde pública não estão inseridos no elenco dos servidores alcançados por esse direito.
Com relação aos serviços públicos desenvolvidos por grupos armados, aos quais são análogos, para esse efeito, o dos militares, a Constituição expressamente proíbe a greve.
Com base nesse entendimento, na segunda-feira (dia 2 de janeiro de 2012), o Tribunal de Justiça do Estado do Ceara decretou retorno imediato dos policiais e bombeiros ao trabalho. Em caso de descumprimento da determinação, cada policial está sujeito a multa diária de R$ 500, e as associações devem pagar multa de R$ 15.000.
Apesar da decisão, os PMs seguem paralisados, acampados no 6º Batalhão.
Eu até poderia discorrer mais extensamente sobre a minha discordância desse posicionamento, mas, em resumo, eu acredito que se
deve buscar a ratificação da convenção 151 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que versa sobre as relações de trabalho no setor público e que abre possibilidade à negociação coletiva, permitindo sua extensão à polícia.
Voltando ao relato inicial, em virtude dessa paralisação dos policiais militares, que teve a adesão dos policiais civis na noite deste dia 3, uma onda de atos de violência teria assolado a cidade.
Esses fatos foram amplamente divulgados nas mídias sociais durante todo o dia, em relatos revoltados que exigiam uma atitude incisiva do governador do Estado, que, ao que parece, se encontra na Europa, em férias.
Os boatos (ou relatos de situações verídicas) cresceram em progressão geométrica e os comerciantes fecharam as portas de seus estabelecimentos, as pessoas se fecharam em suas residências, as ruas da cidade se fizeram desertas. A cidade parou antes mesmo do sol se por.
São os fatos, como os ouvi.
Eu acompanhei, incrédula, toda a revolução especulativa que se fez no facebook e no twitter e resolvi pagar para ver.
Sai de casa, fui ao escritório, resolvi algumas coisas que precisavam ser resolvidas hoje. Fui ao centro, passei pela Faculdade, fui à Beira Mar, passei na casa de uma amiga, fui ao supermercado e retornei para casa.
Não presenciei e nem vivenciei nenhum ato e violência, o que vi foi uma cidade completa e inacreditavelmente deserta, em plena terça-feira, que não é feriado, em horário comercial.
O que senti foi uma sociedade entregue ao medo e que se rendeu aos apelos e exageros divulgados nas mídias sociais.
São os fatos, como os vi.
Muitos falaram que se estava usando as mídias sócias “de maneira racional e prática” com o intuito de propagar as ações de violência e evitar que mais pessoas fossem vitimizadas.
Eu entendo que, ao contrário dos que assim se manifestaram entenderam, todo esse sensacionalismo que se configurou no que eu chamo de “terrorismo virtual” foi apenas mais uma amostra da nossa realidade social.
A greve estava deflagrada há quase uma semana, era de conhecimento comum que situações como essa poderiam acontecer, mas esperamos chegar a um ponto crítico para nos manifestarmos e “exigirmos” mudanças.
Muitos dos que hoje se manifestaram, talvez nem soubessem da greve, talvez nem saibam das reivindicações, talvez nem entendam o contexto político e social da cidade.
Mas manifestaram-se porque a ameaça deixou de ser distante e passou a ser real. Chegou perto dos seus ipads, iphones, i30´s e semelhantes. Porque colocou em perigo seus patrimônios e suas vidas.
Somos egoístas. E hoje demonstramos nosso egoísmo como nunca.
Eu entendo como um verdadeiro oportunismo se valer de uma situação como a de hoje para alardear aos quatro ventos o quanto a cidade é perigosa e o quanto estamos reféns de governantes incompetentes.
Somos sociedade civil organizada todo tempo, não só em dias desastrosos como hoje. Podemos e devemos nos mobilizar para fazermos valer nossos direitos.
Mas pelo que nos mobilizamos mesmo hoje? Quais os direitos que queremos ver asseguramos?
Será que não devemos ponderar os motivos de termos chegado até aqui?
Eu entendo que o clamor por uma polícia bem equipada, com policiais dignamente remunerados e trabalhando em condições propicias não deve ser visto como uma exigência egoísta de grevistas.
Acredito que vá além disso. Trata-se da busca da eficiência na atuação administrativa, seguindo o disposto no artigo 37 da Constituição.
Eu entendo que se toda essa mobilização tivesse precedido esses atos de barbárie vivenciados hoje por alguns moradores da capital cearense (mais ou menos 20% dos relatos “verídicos” divulgados hoje nas mídias sociais), a cidade hoje não teria parado.
Não se trata de fazer chacota, não se trata de ridicularizar, não se trata de desacreditar.
Minha revolta e indignação são com o modo como as coisas hoje foram postas.
Não estou fechando meus olhos para uma realidade, estou apenas tentando voltá-los para a direção correta, para o foco do problema, pois só assim acredito ser possível se encontrar uma solução racional e duradoura.
O momento não é, no meu entender, de se fomentar o caos social, que foi o que se fez durante todo o dias nas mídias sociais, mas de se ponderar e refletir sobre a realidade que nos assola, tendo a máxima cautela na veiculação de informações que podem, de alguma maneira, interferir na ordem como hoje se viu.
Como disse Juliana Diniz, sabiamente, esse momento pode ser um bom exercício para refletir sobre a ordem constitucional, a importância das instituições e, principalmente, da necessidade de maturidade democrática do povo para enfrentar situações de crise.
“A histeria na opinião pública é o primeiro passo para um estado de exceção.”
Há muito já não somos Forte de Nossa Senhora de Assunção, mas não podemos deixar de ser Fortaleza
São os fato, como os entendi.
Aos três dias de janeiro de 2012, Fortaleza, a terra do sol, do turismo de janeiro, do 2° maior Reveillon do País, parou.
Pela televisão, pelos celulares, tablets, ipods, netbooks e afins as noticias sobre o caos que teria se instaurado sobre a cidade se proliferaram.
Em tempo real historias (ou seriam estórias?) sobre casos “realmente verídicos” acontecidos com os primos dos tios de conhecidos dos relatores de tais fatos foram difundidas como um telefone sem fio (aquela brincadeira dos tempos de criança) interminável.
Assistimos, então, a cidade sendo tomada (real ou virtualmente) e os relatos desesperados das vítimas sendo divulgados como troféus nas mídias sociais. Como provas de que todo aquele sensacionalismo era fundamentado em “fatos reais”.
Nesse ponto, paro para fazer uma digressão e explicar o motivo dessa “onda de terror” que teve seu ápice no dia de hoje.
No dia 29 de dezembro parte dos policiais militares e bombeiros do Ceará decidiram paralisar as atividades, tendo como reivindicação reajuste salarial de 80% em quatro anos, sendo aumento de 20% em cada ano e ainda anistia pela participação em ato de protesto no dia 17 de dezembro, quando servidores protestaram durante uma visita de Cid Gomes a obras do Metrofor, o famigerado metrô de Fortaleza.
Para resolver a situação em caráter emergencial e manter a segurança durante o Reveillon, uma vez que Fortaleza figurou a segunda maior “festa da virada” do país, o governador decretou situação de emergência em todo o território do Estado do Ceará, para contar com reforços da Força Nacional de Segurança e do Exército.
Quanto a essa greve, faz-se importante ressaltar que, como bem explana o Ministro Eros Graus na Rcl 6.568 de 2009, os servidores públicos são, seguramente, titulares do direito de greve. Essa é a regra. Ocorre, contudo, que entre os serviços públicos há alguns que a coesão social impõe sejam prestados plenamente, em sua totalidade.
Atividades das quais dependam a manutenção da ordem pública e a segurança pública, a administração da Justiça e a saúde pública não estão inseridos no elenco dos servidores alcançados por esse direito.
Com relação aos serviços públicos desenvolvidos por grupos armados, aos quais são análogos, para esse efeito, o dos militares, a Constituição expressamente proíbe a greve.
Com base nesse entendimento, na segunda-feira (dia 2 de janeiro de 2012), o Tribunal de Justiça do Estado do Ceara decretou retorno imediato dos policiais e bombeiros ao trabalho. Em caso de descumprimento da determinação, cada policial está sujeito a multa diária de R$ 500, e as associações devem pagar multa de R$ 15.000.
Apesar da decisão, os PMs seguem paralisados, acampados no 6º Batalhão.
Eu até poderia discorrer mais extensamente sobre a minha discordância desse posicionamento, mas, em resumo, eu acredito que se
deve buscar a ratificação da convenção 151 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que versa sobre as relações de trabalho no setor público e que abre possibilidade à negociação coletiva, permitindo sua extensão à polícia.
Voltando ao relato inicial, em virtude dessa paralisação dos policiais militares, que teve a adesão dos policiais civis na noite deste dia 3, uma onda de atos de violência teria assolado a cidade.
Esses fatos foram amplamente divulgados nas mídias sociais durante todo o dia, em relatos revoltados que exigiam uma atitude incisiva do governador do Estado, que, ao que parece, se encontra na Europa, em férias.
Os boatos (ou relatos de situações verídicas) cresceram em progressão geométrica e os comerciantes fecharam as portas de seus estabelecimentos, as pessoas se fecharam em suas residências, as ruas da cidade se fizeram desertas. A cidade parou antes mesmo do sol se por.
São os fatos, como os ouvi.
Eu acompanhei, incrédula, toda a revolução especulativa que se fez no facebook e no twitter e resolvi pagar para ver.
Sai de casa, fui ao escritório, resolvi algumas coisas que precisavam ser resolvidas hoje. Fui ao centro, passei pela Faculdade, fui à Beira Mar, passei na casa de uma amiga, fui ao supermercado e retornei para casa.
Não presenciei e nem vivenciei nenhum ato e violência, o que vi foi uma cidade completa e inacreditavelmente deserta, em plena terça-feira, que não é feriado, em horário comercial.
O que senti foi uma sociedade entregue ao medo e que se rendeu aos apelos e exageros divulgados nas mídias sociais.
São os fatos, como os vi.
Muitos falaram que se estava usando as mídias sócias “de maneira racional e prática” com o intuito de propagar as ações de violência e evitar que mais pessoas fossem vitimizadas.
Eu entendo que, ao contrário dos que assim se manifestaram entenderam, todo esse sensacionalismo que se configurou no que eu chamo de “terrorismo virtual” foi apenas mais uma amostra da nossa realidade social.
A greve estava deflagrada há quase uma semana, era de conhecimento comum que situações como essa poderiam acontecer, mas esperamos chegar a um ponto crítico para nos manifestarmos e “exigirmos” mudanças.
Muitos dos que hoje se manifestaram, talvez nem soubessem da greve, talvez nem saibam das reivindicações, talvez nem entendam o contexto político e social da cidade.
Mas manifestaram-se porque a ameaça deixou de ser distante e passou a ser real. Chegou perto dos seus ipads, iphones, i30´s e semelhantes. Porque colocou em perigo seus patrimônios e suas vidas.
Somos egoístas. E hoje demonstramos nosso egoísmo como nunca.
Eu entendo como um verdadeiro oportunismo se valer de uma situação como a de hoje para alardear aos quatro ventos o quanto a cidade é perigosa e o quanto estamos reféns de governantes incompetentes.
Somos sociedade civil organizada todo tempo, não só em dias desastrosos como hoje. Podemos e devemos nos mobilizar para fazermos valer nossos direitos.
Mas pelo que nos mobilizamos mesmo hoje? Quais os direitos que queremos ver asseguramos?
Será que não devemos ponderar os motivos de termos chegado até aqui?
Eu entendo que o clamor por uma polícia bem equipada, com policiais dignamente remunerados e trabalhando em condições propicias não deve ser visto como uma exigência egoísta de grevistas.
Acredito que vá além disso. Trata-se da busca da eficiência na atuação administrativa, seguindo o disposto no artigo 37 da Constituição.
Eu entendo que se toda essa mobilização tivesse precedido esses atos de barbárie vivenciados hoje por alguns moradores da capital cearense (mais ou menos 20% dos relatos “verídicos” divulgados hoje nas mídias sociais), a cidade hoje não teria parado.
Não se trata de fazer chacota, não se trata de ridicularizar, não se trata de desacreditar.
Minha revolta e indignação são com o modo como as coisas hoje foram postas.
Não estou fechando meus olhos para uma realidade, estou apenas tentando voltá-los para a direção correta, para o foco do problema, pois só assim acredito ser possível se encontrar uma solução racional e duradoura.
O momento não é, no meu entender, de se fomentar o caos social, que foi o que se fez durante todo o dias nas mídias sociais, mas de se ponderar e refletir sobre a realidade que nos assola, tendo a máxima cautela na veiculação de informações que podem, de alguma maneira, interferir na ordem como hoje se viu.
Como disse Juliana Diniz, sabiamente, esse momento pode ser um bom exercício para refletir sobre a ordem constitucional, a importância das instituições e, principalmente, da necessidade de maturidade democrática do povo para enfrentar situações de crise.
“A histeria na opinião pública é o primeiro passo para um estado de exceção.”
Há muito já não somos Forte de Nossa Senhora de Assunção, mas não podemos deixar de ser Fortaleza
São os fato, como os entendi.
sábado, 20 de agosto de 2011
Talvez, nem seja pedir tanto...
O texto que vou transcrever circula na internet e foi postado por um professor no grupo de e-mails da faculdade recentemente. A suposta autoria dele é atribuída a Abraham Lincoln, no ano de 1830, que o teria escrito, em forma de carta, e endereçado ao professor de seu filho.
Não acredito mesmo que isso seja verdade e não encontrei, em minha breve pesquisa, qualquer comprovação da veracidade dessa informação. Entretanto o anonimato da autoria, no meu ponto de vista, não diminui a importância dos valores contidos nessas palavras.
Engraçado que esse texto expressa exatamente o meu sentimento nesse momento da minha vida. Um sentimento de desilusão por constatar certas verdades inarredáveis, mas que tem sido sufocado pela esperança e fé que me movem e motivam a transformar o mundo, começando por mim.
__________________________________________
“Caro professor, ele terá de aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas por favor diga-lhe que, por cada vilão há um herói, que por cada egoísta, há também um líder dedicado, ensine-lhe por favor que por cada inimigo haverá também um amigo, ensine-lhe que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada, ensine-o a perder mas também a saber gozar da vitória, afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso, faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros do céu, as flores do campo, os montes e os vales.
Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos. Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros, ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram.
Ensine-o a ouvir a todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho, ensine-o a rir quando esta triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram. Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão.
Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço, deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso. Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens. Eu sei que estou a pedir muito, mas veja que pode fazer, caro professor.”
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