História baseada em fatos mais ou menos reais.
Tenho um aluno que quase toda aula chega atrasado. Normalmente assiste aula sentado em uma das últimas carteiras. Sempre de óculos escuros. Sempre com um sorriso no rosto.
Enquanto dou aula, costumo observá-lo. Como faço com outros alunos também. E, ao contrário do que poderia parecer pela descrição que fiz, mesmo com os óculos escuros que sempre o acompanham, desde o primeiro dia, de aula percebi seu interesse.
Faço uma pausa nessa história para uma digressão.
(Acredito, na verdade, que é isso que nós – professores – somos: contadores de histórias. Acredito que temos que contar essas histórias de maneira a inspirar e motivar quem as ouve) .
Então, vamos à digressão: no início desse semestre, mais precisamente no dia do estudante, dia 11 de agosto, fraturei a tíbia da perna direita jogando futebol (não foi exatamente jogando e eu conto melhor essa história em outro texto aqui no blog). Em razão dessa fratura, tive que fazer uma cirurgia e ficar cerca de 50 dias com um fixador externo na perna, o que fez com que eu me afastasse das atividades por aproximadamente três semanas. Voltei a dar aula ainda com o fixador na perna.
Então, em uma manhã de segunda-feira, lá estava eu ministrando a aula, quando o aluno que descrevi no começo do texto chegou. Sentou no lugar de costume e lá permaneceu até o final da aula, quando, enquanto eu arrumava minhas coisas e todos iam saindo, ele parou ao meu lado, tirou os óculos escuros e começou a conversar comigo.
Pela primeira vez nos olhamos sem que ele estivesse de óculos escuros. E, enquanto eu o olhava, ele me perguntou como eu estava e começou a me contar uma história, a sua história. Naquela hora, eu passei a ser a espectadora, a aprendiz, a aluna, e ele o professor.
Ele apontou para o olho esquerdo e disse: “Tá vendo, professora? Eu não tenho o olho esquerdo”.
Ainda recém nascido foi diagnosticado com retinoblastoma e desenganado pelos médicos. A mãe, ainda que sem tantas condições, não acreditou no prognóstico, seguiu procurando um tratamento que o salvasse. Nessa busca, encontraram um médico especialista que acabara de chegar de um período de estudos no exterior no qual aprendera um nova técnica para casos como o dele. Ainda que o procedimento fosse perigoso, era a melhor oportunidade dele. O médico aceitou tratá-lo. Os pais aceitaram os riscos que aquele procedimento acarretava. A cirurgia foi feita. E foi bem sucedida. Contra todos os prognósticos, ele sobreviveu e se curou. (E isso explica o uso constante dos óculos escuros).
Ele apontou para a mão esquerda e disse: “Tá vendo, professora? Eu não tenho metade do dedinho da mão esquerda. Quando era ainda menino tentei pular de uma janela de vidro e minha mão ficou pendurada".
Ele apontou para o braço e me mostrou as marcas de uma cirurgia que tivera que fazer para colocar pinos no osso em razão de uma fratura que sofreu quanto estava andando de skate.
E me contou tudo aquilo sorrindo, para ao final dizer: “fique tranquila, passa, você vai ficar bem. Eu tô aqui. Sobrevivi a tudo isso e tô bem“.
Para qualquer pessoa que tenha ouvido nossa conversa ou que esteja lendo agora pode parecer só mais uma história de um cara que superou uma doença e que agora vive loucamente.
Mas aquele aluno contador de histórias me transmitiu várias mensagens que talvez nem ele mesmo saiba. Ele reafirmou que a gente nunca pode julgar pela aparência, afinal a gente nunca sabe o que pode ter por trás dos óculos escuros. Mas a mensagem mais bonita que ele me passou com aquela conversa foi: viver deixa marcas.
Às vezes marcas físicas, visíveis.
Mas, na maiorias das vezes, marcas na alma.
Fiquei alguns momentos só na sala de aula depois que ele saiu e fiquei analisando aquela nossa conversa e o meu papel ali. Fiquei pensando sobre minha função na vida de todas aquelas pessoas.
Sentada, sem plateia, falei só por alguns minutos e cheguei a algumas conclusões as quais passarei a listar.
Acredito que nossa maior função não é transmitir um conteúdo de maneira cartesiana, pragmática.
Obviamente precisamos passar o conhecimento. Precisamos oferecer, da melhor maneira possível, possibilidades de evolução intelectual.
Mas o conteúdo é superável. Como diz Karl Popper, tanto melhor será uma teoria científica, quanto maior a possibilidade de ser falseada.
O conteúdo do Direito mais ainda.
A teoria que passei para os meus alunos de processo civil no ano passado já está defasada. Temos um novo código.
E então? O que fica? Qual a nossa função?
E eu percebi que o nosso maior papel é justamente esse: deixar marcas.
Marcas que os farão lembrar do conhecimento quando dele precisarem, mas, mais ainda, marcas que os farão compreender que tudo na vida depende do quanto você está disposto.
Muitos dizem que precisamos ser exemplo. Eu não concordo. É difícil ser espelho. É muito pesado esse fardo para qualquer pessoa. As pessoas vivem e sentem de maneiras diferentes e nem sempre a maneira como escolho viver encontrará eco nas escolhas feitas pelos outros.
Mas acredito que o que precisamos mesmo é deixar marcas. Marcas que sempre que tocadas irão motivar, de algum modo, a seguir.
O que eu posso dizer é que tenho muitas marcas. Marcas de professores que passaram pela minha vida e contribuíram para a minha formação pessoal, aos quais serei sempre grata.
Levo comigo também marcas de alunos queridos que alimentaram minha vocação e que me fizeram perceber que eu não poderia ter feito melhor escolha.
Sou professora, com orgulho.
Nenhum comentário:
Postar um comentário